quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Brava Ragazza

Esse texto, por ser grande demais, resolvi separá-lo por partes... assim não vai ficar muito cansativo de ler em um só post e assim posso até, quem sabe, deixar vocês um pouco curiosos. EU ACHO.



Minha avó, no leito de seus últimos dias, me chamou na cama do hospital e começou a contar sobre a história dos Dionísios. 

Sicília... mais ou menos em 1910 eles se conheceram.

Ele, um judeu Sefardita, vindo da Espanha.
Ela, uma cantora de bar, originada da Itália.

Alfaiate, trabalhava para famílias renomadas no ramo da política. Seu expediente havia terminado um pouco antes do de costume, então, ele e seu amigo Antônio foram a um pequeno bar localizado a umas 4 casas de lá.
Era um dia quente de verão, mas mesmo assim, vestia uma blusa de linho, suspensório e sua inseparável boina xadrez.
No caminho do bar, ele se assustara com a velocidade que passara um carro. Coisa que só os ricos tinham.
Havia sido a primeira vez que ele tinha visto um de tão perto, um susto enorme, e começou a gritar e xingar o motorista que lá dirigia "Cazzo!", "Farabutto!", puto da vida seguiu em direção ao seu destino.
Onde de lá, viu uma mulher com um vestido vermelho longo, mostrando uma de suas pernas e ficou embriagado com seu perfume, seus cabelos e sua atitude ao entrar no recinto tão farto de homens.
- Será que ela é mulher de algum fanfarrão?   pensou rindo.
Ao entrar no bar, sentou-se e ficou conversando com seu amigo. Pediu um copo de uísque. Ele era viciado em uísque. Após uns 4 copos, já querendo pagar a rodada de seus novos amigos. Saiu para mijar e fumar um cigarro. Fumou e jogou a piola na sarjeta da calçada, onde haviam outras inúmeras.
Escutou uma voz feminina e resolveu entrar as pressas, para saber de quem era a dona daquela voz hipnotizante. Surpreso, vira que era a mesma mulher que havia visto algumas horas antes, saindo daquele carro desgovernado. Saiu correndo para a florista mais próxima e comprou um ramalhete de margaridas, nunca foi bom em escolher flores, mas sentiu que ela gostasse de belas margaridas.
Voltou as pressas, mas viu que ela já tinha terminado de cantar. Foi correndo ao camarim e, calmamente, bateu na porta três vezes.
- Entre
Entrou. Primeiro começou a se apresentar, disse quem era. Amigos de influentes. E deu as margaridas,
- Eu não sabia se você iria gostar... mas pensei em ti quando olhei para elas.
- Margaridas?!  Que lindas! Eu não sabia que você tinha esse apreço por mim.   Respondeu envergonhada.
Mas que porra... pensou,  - Sim, claro!
- Anote meu endereço e mande-me uma carta com o seu. Estarei aguardando ansiosamente.
Beijou-a na mão e retirou-se com seu amigo embriagado. Foi correndo para casa pesquisar nos livros da mãe qual o significado das margaridas que havia pego. "Você é tudo para mim". Bola dentro.
Passou duas semanas pensando no que diabos iria escrever na carta, mas só sabia que a imagem dela estava impregnada junto com seu cheiro.
Pegou o papel e começou:
"É difícil escrever sobre o que penso quando você é a musa da minhas ideias,
Ou o por quê disso, ou o porque de não saber dizer o porque de te admirar,
Ou se porque sinto isto significa que te amo, ou amo isso,
Sentindo assim que te amo, ou se amo você por te amar,
E sentir isso por ter amar, e ter amor pelo sentimento que sinto quando penso em você,
Ou se quero estar com você porque amo você pelo fato de estar com você, não sei.
Na verdade sei nem o que escrevi. Só quero pedir desculpas pela demora da carta.
Nunca fui bom em cartas."
Apos dois dias obteve uma responta, uma resposta com um cheiro floral, com uma letra belíssima e um papel de carta escrito:
"Por que demoraste tanto?
Me encontre na praia as 15h para conversarmos"

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Heima Helena

Eu não tinha casa, apenas um amontoado de concreto onde só ficava pra dormir e comer.
As vezes chegava  nem a comer. Era um lugar amaldiçoado, maldito e solitário.
Lembro-me que nessa época eu tinha duas mães, isso mesmo. Duas mães.
Minha mãe que morava comigo e a mãe da escola. A que morava eu a defendia, lutava por ela e cuidava.
A minha mãe da escola era o contrário, me defendia, lutava e cuidava de mim... e com a ajuda dela eu tinha forças pra matar um leão a cada dia.
Anos se passaram e a situação na minha casa não melhorava, até que o reveillon chegou, e com a surpresa...
Minha mãe sumiu. Tudo era mais difícil sem os conselhos dela, sem as balinhas, os afagos e o cafuné.
E eu senti uma raiva, queria que tudo ao meu redor sumisse. Os problemas foram aumentando gradativamente com a dúvida de saber onde ela estava e o que havia acontecido. Ganhei conhecimento, mas nada de casa.
Ganhei experiência, mas nada de carinho. Ganhei mudanças... e nada de conselhos.
A saudade virou revolta. Ódio. Desapego. Criei um rancor chamado Helena, uma raiva por ela ter me abandonado.
Perdi meu avô, perdi meu pai. Perdi minha pureza. Perdi minha paciência.
Dois anos se passaram e vi um vulto parecido com o dela, a segui por cinco minutos até que ela percebera minha presença, virou-se e falou:
- É você?
- Sim.
Choramos. Ela me chamou pra casa dela. Eu fui.
Helena falou  por 2h sem parar, ela me contava o que aconteceu em sua vida:
Marido morto, depressão, sem vitalidade pra trabalhar acabou demitindo-se. Filhos a abandonaram.
- Me conte de você, minha filha...
- Ganhei raiva. Perdi a chance de crescer como uma pessoa normal, ao seu tempo.
Lembro que despejei toda a minha raiva guardada nela.
Choramos. E ela fez uma cabana com lençóis e disse:
- Aqui está... essa é a nossa casa. Heima, lembre desse nome... Heima significa Casa. Casa não é o que nos dá teto, nos protege da chuva e do frio... Casa está dentro de nós, é o pensamento que te dá paz. E você, é a minha Heima.

Comecei a ver a vida de outra forma, uma forma mais limpa. Realista. Onde o certo e o errado andam de mãos dadas, entrelaçadas. E se você chorar, pense na sua casa. A casa é a vida. A casa é o olhar de como seu gato lhe pede carinho. É o sussurro quente do seu namorado. É o sorriso estampado na sua família.
Isso é Heima.
Minha Heima.

...Maria Helena, por alguns momentos, foi a mãe que pedi pra Deus nos momentos mais difíceis.
Eu te amo, onde quer que você esteja, seja aqui ou no céu. Você está guardada na minha casa.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Scatologia: e a concepção do Apocalipse.

Estava organizando os documentos dos meus pais e me deparei com um livro de capa dura, preta... escritos com pequenas letras douradas "Bíblia Sagrada". Nunca tinha lido uma, nem nas minhas aulas de catequese que, por sinal, sempre achei-as inúteis... não sabia nenhum tipo de oração católica e só estava curiosa em saber qual era o gosto daquela ostea que todo mundo formava filas enormes para comer.
Passava as folhas, via uns mapas e achava estranho... até que parei pra ler o Apocalipse.
Aquilo me fascinava, ver que surgiria na Terra uma imagem simbólica que julgaria os que foram "puros" e "pecadores". E me peguei na seguinte questão, em qual deles eu iria ser posta?
Não me sinto nada bem em saber que Deus daria uma etapa de 7 desgraças que seriam as provações dos fortes e iluminados. Ou que só uma religião vai resistir. Enfim. 
Pergunto? Como diabos é que eu vou saber quando isso estiver acontecendo? E se já estiver? 
E se nunca acontecerá e isso for apenas um medo posto em adultos para serem alienados em uma religião?
Acredito que são poucas as pessoas que optariam em realmente mudar de "estilo de vida mundano" para algo puro só para entrar no céu, falar é fácil... Passo lendo artigos e mais artigos, cada um com sua ideologia e me pego dizendo:

-Amor, eu quero Scat* hoje. Pode ser?

...ninguém é puro. Tudo é relativo. E as vezes, a religião pode ser algo absurdo em certos aspectos, cabe a você decidir o que é certo ou errado no seu ponto de vista.


Scat: Coprofilia
Scatologia: Parte da teologia que estuda o Apocalipse

Rejeição é natural.

Lembro de um certo fato ocorrido na minha vida, quer dizer, na minha e na de Frinfa.

Morava na casa de minha avó, onde lá tinha mais ou menos 12 gatos... todos acolhidos por mim. Cuidados por mim e minha avó e dados pra adoção. No mês de setembro, chegou uma gata prenha.
- Puta merda, ela vai sujar tudo de sangue. pensei.
Dito e feito, o parto foi fácil para os 3 gatos... menos pra ultima, que saiu tão difícil... que tive que ajudar a tira-la.  Passaram-se dias e percebi que o envolvimento mãe/filhote não era muito comum entre elas. Na hora de mamar, a mãe a rejeitava. E ela ficava com fome, jogada de lado. Tanto foi que, um dia, ela e seus irmãos a abandonaram. Não pude deixar de sentir dó dela, mas também senti vontade de cuida-la. Dava leite na seringa, forçava-a a tomar os remédios quando ficava doente, assim como minha mãe fazia comigo. Ajudava-a a se limpar, colocava-a nos galhos das árvores pra se acostumar com a altura. Enfim.
Passaram-se 4 anos e só fui perceber um dia desses, quando lia uma revista científica o verdadeiro motivo da rejeição. Ela era surda. Engraçado como essa falta de "humanidade" existe até nos animais, criaturas que, como dizem, não saberem o que significa "maldade","malícia"... só o instinto.
 Hoje em dia trato-a da mesma forma como tratava antes sem saber desse fato, grito quando ela rasga minhas roupas, quando morde meu pé enquanto durmo. Começo a rir quando ela morre de medo do meu irmão e acho uma fofura quando ela fica olhando hipnotizada pra tela do computador enquanto jogo.
 Sei que gatos não sabem ler mas me sinto na obrigação de escrever sobre essa nojenta, que está nesse exato momento brincando de Le Parkour, Frinfa, eu sei que sua memória deve ser horrível, que nem a minha, mas se você se lembrar da sua progenitora, fique com raiva e morda todos os meus dedos dos pés.
 E saiba que eu vou estar do seu lado até você ficar velhinha, cheia de banha e banguela.
Te amo e obrigada por lamber minha comida... é um temperinho delicioso.


...moral da história: Todo mundo se fode, cabe aos que estão ao redor a ajudar, ou a si mesmo né.

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2012

Vai tomar no cu


"  14 de janeiro de 2009
Você vai viajar por aí e lhe desejo sorte. De todo modo, eu estava sentado na sala, bebendo água, luz apagada e o ventilador girando de modo imbecil no teto. Foi quando comecei a olhar pras estrelas, e lembro de já ter escrito algo sobre elas e como elas me remetiam a você. Então, Nádia? Será que você nunca vai sair daqui... da cabeça desse teu amante? O melhor beijo sempre foi o teu. Mas o que será do meu? Nunca amei ninguém tão intensamente como amei você, e ainda amo muito, por sinal. Como, me explica, podemos deixar isso tudo de lado? Se você me ama tanto, assim como te amo tanto, por que deixar-mos de lado? A cada dia venho perdendo o meu rumo. E, desesperadamente, não sei como fazer algo para evitá-lo. Sim, é difícil, meu amor. E o que faço eu? Não sei, realmente. Quando, recentemente, nós tentamos voltar, e por qual causa não sei, você não quis, sob a premissa de que "o fato de voltar comigo incomoda", eu depositei tudo nisso. Voltaria para casa da minha mãe, faria meu curso, seria um rapaz ideal para que um dia você pudesse falar que é casada com o professor do bloco ao lado. Então, você contaria nossa história? Mas agora... que história contarei? Teu grande amigo já não tem o que contar. E agora, deposito tudo em ti. Espero que você, como já disse, faça bem sua viagem, escolha bem com quem se envolve e sempre, sempre, se mantenha bem e saudável, com boas perspectivas.
Hoje, lembrei muito de ti. O hoje tem tua cara, sempre.


Devotamente."

Vazio toma o quarto
Apos ler essa folha velha, guardada em um de meus livros
Imagino como seria se nada disso tivesse acontecido.
Traição e perdão. Perdão e humilhação.
Orgulho era extinto, junto com o amor próprio.
Mas de que pensava eu, de um sentimento tão intenso e "puro" (puto)
Amar realmente não era nada daquilo que eu passava.
Renunciei, foi difícil. Pra caralho.
Não imaginei que fosse tão difícil assim.
O dia 23 de outubro se tornou a data de minha libertação.
Com isso uma alegria muito maior...
Uma coisa que tinha sido roubada de mim a muito tempo...
... Filho da puta.